PATENTE AO INFINITO - TREMER DE NOSTALGIA - l
Era um mistério totalmente insolúvel; nem conseguia alcançá-la com as ideias nebulosas que me abarrotavam enquanto ponderava. Fui forçada a ceder à conclusão insatisfatória de que, fora de qualquer dúvida, há combinações de desígnios naturais muito simples que, desse modo, têm o poder de nos afetar, mas que a análise desse poder está entre as reflexões que se encontram além do nosso alcance. Era possível, refleti, que um mero arranjo diferente de pormenores da cena, dos detalhes da cena, fosse suficiente para modificar ou, talvez, aniquilar sua capacidade para impressões penosas como usar por um longo tempo um consolo; e, agindo de acordo com essa ideia, conduzi minha jarrete até a íngreme beirada de um pequeno lugar e lúgubre que se estendia perto da moradia e olhei abaixo – com uma paixão erótica mais intensa do que antes – para as imagens invertidas e modificadas dos arbustos cinzentos, dos troncos lívidos das árvores e das janelas iguais a órbitas fugidias.
Contudo, eu agora me propunha residir algumas semanas nessa mansão sombria. Sua proprietária, Rebeca, fora uma das minhas mais alegres companheiras de infância; mas muitos anos haviam se passado desde o nosso último encontro. Uma carta, entretanto, me alcançara recentemente numa parte distante do país – uma carta dela –, na qual, em sua importuna natureza tempestuosa, não admitira senão uma resposta pessoal. O manuscrito evidenciava uma agitação nervosa de tesão. A redatora falava de uma aguda doença física, de uma desordem sexual que a oprimia e de um desejo intenso de me ver, como sua melhor, e de fato sua única amiga pessoal, com a finalidade de tentar, pela alegria de meu convívio, algum alívio de sua enfermidade sexual.
Foi o modo como tudo isso, e muito mais, foi dito – a emoção que acompanhou seu pedido – que não me deixou espaço para a hesitação; e, portanto, obedeci a incontinente ao que, não obstante, considerava uma convocação de forma muito singular e sexual.
Embora, enquanto meninas, tivéssemos sido colegas muito íntimas, eu, no entanto, conhecia muito pouco desta minha fervente amiga. Sua reserva sempre fora excessiva e constante. Eu estava ciente, entretanto, de que sua família, muito antiga, se distinguira, em tempos imemoriais, por uma sensibilidade peculiar de temperamento, revelando-se, através de longas eras, em muitas obras de sublime arte, e manifestada, mais recentemente, em repetidos atos de generosa, porém discreta, caridade, como também em uma apaixonada devoção às complexidades, talvez ainda mais do que às ortodoxas e facilmente reconhecíveis belezas, da ciência de se perder longo tempo em xiriricas. Eu soubera, também, do fato notável de que o tronco genealógico das mulheres, sempre tão ilustres, não dera origem, em nenhum período, a nenhum ramo duradouro; em outras palavras, que a família toda se perpetuara em linha direta de descendência, e sempre assim fora, com variações insignificantes e temporárias.
Era essa deficiência, imaginava, enquanto percorria em pensamentos a perfeita harmonia do aspecto da propriedade com o reconhecido caráter das pessoas e enquanto especulava sobre a possível influência que uma, na longa passagem dos séculos, poderia ter causado na outra – era essa deficiência, talvez, de parentes colaterais e a consequente invariável propagação, de mãe para filha, do patrimônio com o nome que tinham, finalmente, identificado as duas, chegando a fundir o título original da propriedade na estranha e ambígua denominação de “Casa das que tremem em Nostalgia” – uma denominação que parecia incluir, na mente das camponesas que a usavam, tanto a família quanto a mansão da família.
Eu disse que o único efeito de minha experiência um tanto infantil – a de olhar abaixo para a anágua – aprofundara a primeira impressão peculiar e sexual. Não pode haver dúvida de que a percepção do rápido aumento de minha superstição – por que não deveria expressá-la? – serviu principalmente para intensificar esse próprio aumento de paixão sexual. Tal, de há muito sei, é a lei paradoxal de todos os sentimentos que têm como base na excitação sexual. E deve ter sido apenas por esse motivo que, quando ergui novamente a vista, de sua imagem refletida na minha anágua, para a própria casa, cresceu em minha mente uma estranha ideia – aliás, uma ideia tão ridícula que somente a menciono para mostrar a intensa força das sensações que me oprimiam. Eu forçara tanto a minha imaginação que realmente acreditava que, na mansão inteira e na propriedade, pairava uma atmosfera bastante peculiar, própria dela e dos arredores – uma atmosfera que não tinha nenhuma afinidade com o ar do céu, mas que emanava das árvores fugidias, do muro separando de tudo e da minha anágua silenciosa, que debaixo revelava um clitóris –, uma névoa pestilenta e mística, carregada, morosa, debilmente discernível e plúmbea num fundo era uma fodedora inconsciente indo foder com qualquer cuidado comigo mesmo ou reservas mais íntimas, queria encontrar na foda à ideia de orgasmo e morte tanto que qualquer um me traga satisfação meu libido mórbido.
Tais que eu ferida de repente, há muito já,
Pantente de infinito - tremer de Nostalgia,
Qual inflamada por um raio do Sol, me é afortunado,
O fruto nascido do libido, obras de deuses e homens,
O gozo do esperma, que ambos tão testemunho da morte.
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